Tecnologias apresentadas na Agrishow 2026 mostram como sensores e algoritmos mudam a forma de aplicar insumos na lavoura brasileira
A pulverização de defensivos agrícolas, prática que historicamente cobre grandes áreas sem considerar a localização exata de cada praga, está passando por uma transformação impulsionada pela inteligência artificial. Durante a Agrishow 2026, realizada em Ribeirão Preto entre os dias 27 de abril e 1º de maio, Matias Schelp, vice-presidente de Agricultura Inteligente da Bosch, afirmou que sistemas de pulverização inteligente já conseguem reduzir em média 62% o uso de defensivos no campo, ao identificar pragas em tempo real e permitir a aplicação pontual de insumos apenas onde realmente é necessário.
O avanço não é isolado. Iniciativas como o See & Spray, da John Deere, e soluções nacionais como Cromai e Zait já demonstram, segundo especialistas do setor, resultados de redução de até 80% no uso de herbicidas ao combinar câmeras, sensores e algoritmos de visão computacional. Para o produtor brasileiro, que lida com um dos maiores volumes de consumo de herbicidas do mundo, entender como essas tecnologias funcionam e o que esperar delas nos próximos anos se tornou parte essencial do planejamento da lavoura.
Como a inteligência artificial identifica pragas no campo
O princípio por trás dessas tecnologias é relativamente simples de entender, mesmo que a engenharia por trás seja sofisticada. Câmeras e sensores instalados em pulverizadores, tratores ou drones capturam imagens da lavoura em tempo real enquanto o equipamento se movimenta pelo campo. Algoritmos de visão computacional analisam essas imagens instantaneamente e identificam, planta a planta, onde existe uma praga, uma doença ou uma planta daninha que precisa de tratamento. Em vez de pulverizar toda a área de forma uniforme, como ocorre na aplicação tradicional, o sistema aciona os bicos de pulverização apenas nos pontos exatos onde o problema foi identificado.
Segundo Matias Schelp, da Bosch, essa abordagem é especialmente relevante para o Brasil, que está entre os países que mais consomem herbicidas no mundo, com grande parte do produto se perdendo durante a aplicação tradicional. A economia média de 62% no uso de defensivos beneficia tanto o bolso do produtor, que reduz gastos com insumos, quanto o meio ambiente, já que menos produto químico é despejado na lavoura e, consequentemente, no solo e nos cursos de água próximos. Soluções brasileiras como a Cromai e a Zait seguem lógica semelhante, permitindo pulverização seletiva em tempo real com ganhos diretos em custo, eficiência operacional e indicadores ambientais, sociais e de governança, conjunto de critérios cada vez mais exigido por mercados importadores e investidores do setor.
Robôs autônomos e agentes de inteligência artificial no campo
Além da pulverização seletiva, a Agrishow 2026 evidenciou uma mudança mais ampla na forma como a inteligência artificial está sendo aplicada na agricultura brasileira. A presença de robôs autônomos, como os modelos Solix XT e XC, da empresa brasileira Solinftec, equipados com a inteligência artificial chamada Alice Multiagente, mostra que a tecnologia está deixando de ser apenas uma ferramenta de análise de dados para passar a executar tarefas diretamente no campo, sem necessidade de operação humana constante.
Esse movimento confirma uma tendência apontada por especialistas em inovação do setor: a chegada dos chamados agentes de inteligência artificial, sistemas autônomos ou semiautônomos capazes de analisar dados, executar tarefas e oferecer recomendações práticas sem depender de comando humano constante. Um exemplo citado por especialistas do setor é o de um agente que analisa relatórios de colheita, cruza essas informações com dados de mercado e sugere o melhor momento para a venda da produção, ou ainda um sistema que monitora a operação de uma frota de máquinas agrícolas e agenda manutenções preditivas de forma automática. Para o agronegócio brasileiro, que representa cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, segundo dados citados por especialistas do setor durante a feira, a adoção dessas ferramentas deixou de ser apenas um diferencial competitivo e passou a ser vista como condição para manter a competitividade frente às exigências de sustentabilidade e eficiência impostas pelo mercado global.
O que esperar da próxima fase da tecnologia no campo
Olhando para os próximos meses, a tendência apontada por especialistas que participaram da Agrishow 2026 e de outros eventos do setor é de consolidação dessas tecnologias, e não apenas de experimentação. A inteligência artificial preditiva, que já é usada para otimizar o uso de insumos, prever safras e monitorar a saúde do cultivo em tempo real, deve se tornar prática comum em propriedades de diferentes portes, e não apenas nas grandes fazendas que tradicionalmente lideram a adoção de novas tecnologias.
Um dos fatores que sustenta essa expansão é a chamada cloudificação, ou seja, a migração de sistemas de gestão agrícola para a nuvem. Essa tecnologia permite que dados coletados por máquinas e sensores no campo sejam armazenados mesmo quando não há conexão com a internet disponível no momento, sendo sincronizados automaticamente assim que uma rede estiver acessível novamente. Como a conectividade ainda é um desafio em diversas regiões rurais do Brasil, essa funcionalidade é considerada essencial para que a inteligência artificial continue avançando mesmo em áreas mais remotas do território nacional. Além disso, o aumento da automação e da coleta de dados levanta também a necessidade de atenção redobrada à segurança da informação, já que operações mais conectadas e integradas a sistemas corporativos, fornecedores e mercados externos ampliam a exposição a riscos cibernéticos, tema que tem ganhado espaço entre executivos de tecnologia do setor agropecuário.
A combinação entre pulverização seletiva, robôs autônomos e agentes de inteligência artificial mostra que a tecnologia deixou de ser apenas uma vitrine de inovação nas grandes feiras do setor e passou a integrar a rotina operacional de parte do campo brasileiro. Para o produtor, o desafio agora é avaliar quais dessas soluções fazem sentido para o tamanho e o tipo da sua operação, considerando custo de implementação, ganhos de eficiência esperados e a infraestrutura de conectividade disponível na propriedade. Já para fornecedores de tecnologia, a aposta crescente do mercado nesse tipo de solução indica que a demanda por inovação no campo brasileiro deve continuar em ritmo acelerado nos próximos anos, acompanhando a necessidade do setor de produzir mais, com menos insumos e maior responsabilidade ambiental.
Fontes:
- https://timesbrasil.com.br/empresas-e-negocios/agro/agrishow-2026-ia-no-campo-pode-reduzir-em-62-uso-de-defensivos-diz-vice-presidente-da-bosch/
- https://www.pwc.com.br/pt/consultoria/agtech-innovation/agtech-innovation-news/materias/2026/10-tendencias–agro-2026.html
Autor: Diego Rodríguez Velázquez