Exportações recordes no primeiro semestre e clima de incerteza nos Estados Unidos impulsionam a valorização do grão nas últimas semanas
O mercado físico de grãos no Brasil vive um momento de reviravolta na segunda metade de julho. Depois de meses de recuo, o preço da soja recuperou todas as perdas acumuladas ao longo de 2026 e chegou ao maior valor médio mensal do ano. O movimento chama atenção porque ocorre justamente no período de entressafra, quando normalmente a formação de preços responde mais ao ritmo das exportações e às expectativas sobre a próxima safra do que à oferta imediata do produto. A dúvida que fica para o produtor rural é até onde essa recuperação pode ir e o que está realmente sustentando essa alta, já que o Brasil segue exportando em ritmo recorde mesmo com o cenário internacional ainda instável.
Como a soja zerou as perdas do ano
Segundo dados do Cepea/Esalq compilados pelo portal Notícias Agrícolas, o preço médio da soja em julho, até o dia 17, alcançou R$ 139,1 por saca, o maior patamar médio de 2026 e valor superior à média nominal registrada em julho de 2025, de R$ 136,9. O dado é significativo porque, ao longo do primeiro semestre, a cotação do grão vinha em trajetória de queda, pressionada por fatores como oferta abundante e demanda internacional mais cautelosa. A reversão dessa tendência na segunda quinzena de julho levou o mercado a considerar que o pior momento de preços baixos já ficou para trás neste ciclo. Farmnews
Uma reportagem do portal Agron detalhou o comportamento da quinzena com mais profundidade. De acordo com o levantamento, a soja liderou os ganhos do período com uma alta de quase 5,0%, fechando a R$ 138,7 por saca, enquanto o boi gordo recuou 2,1% no Cepea no mesmo intervalo. Esse contraste mostra como o mercado agropecuário brasileiro caminha com dinâmicas distintas entre grãos e pecuária, cada um respondendo a fatores próprios de oferta, demanda e custo de produção. Enquanto os grãos ganharam fôlego após as quedas acumuladas do início do ano, a pecuária de corte enfrentou uma correção pontual nas cotações. Agron
Ainda segundo o Notícias Agrícolas, na esteira da valorização da soja, o preço futuro do milho também permanece em alta no mercado físico, com o mercado futuro indicando continuidade do movimento de valorização ao longo dos vencimentos até a parcial de 2027, ainda que o preço médio do cereal siga próximo da mínima do ano. Esse movimento conjunto entre os dois grãos mais importantes da pauta exportadora brasileira reforça a percepção de que a recuperação de julho não é um fenômeno isolado da soja, mas reflete uma mudança mais ampla nas expectativas do mercado agrícola para o segundo semestre. Farmnews
Exportações recordes sustentam a valorização do grão
Por trás da recuperação de preços está o desempenho robusto do comércio exterior brasileiro. De acordo com dados do próprio Notícias Agrícolas, o Brasil exportou 69,57 milhões de toneladas de soja entre janeiro e junho de 2026, volume acima do registrado no mesmo período de anos anteriores, impulsionado por demanda global aquecida, especialmente por óleo de soja, e por um dólar valorizado frente ao real. Esse ritmo de embarques mantém o país na liderança global das exportações do grão, consolidando o papel estratégico do agronegócio brasileiro no abastecimento de mercados como China e União Europeia. Agron
Chama atenção, porém, que as vendas para a China, maior parceiro comercial do Brasil no setor, seguiram praticamente estáveis. Conforme apurado pelo Notícias Agrícolas, as vendas para o país asiático somaram 48,32 milhões de toneladas no primeiro semestre, valor pouco abaixo dos 48,41 milhões registrados no mesmo período de 2025. Isso indica que o crescimento das exportações totais brasileiras veio, em boa parte, de outros destinos, e não necessariamente de um salto na demanda chinesa, o que reforça a importância de diversificar os compradores da soja nacional em um cenário de comércio internacional ainda marcado por tensões comerciais. Farmnews
Outro elemento que tem sustentado a alta é o clima nos Estados Unidos, principal concorrente do Brasil na produção mundial de soja. O mercado tem monitorado de perto os riscos climáticos nas lavouras norte-americanas, já que qualquer sinal de quebra de safra por lá tende a reduzir a oferta global e pressionar ainda mais os preços para cima. Esse fator externo, somado à demanda aquecida por óleo de soja, ajuda a explicar por que os estoques mundiais do grão seguem mais ajustados do que o esperado, mesmo diante da ampla oferta brasileira.
O que esperar para os próximos meses
Apesar da recuperação recente, especialistas do mercado ponderam que o valor atual da saca de soja ainda está distante dos patamares observados entre 2021 e 2022, período de forte valorização das commodities agrícolas em escala global. Isso significa que, embora a alta de julho seja relevante para o caixa do produtor neste momento de entressafra, ela não representa necessariamente um retorno aos preços recordes vistos alguns anos atrás. A leitura mais realista é a de uma correção pontual, influenciada por fatores conjunturais como clima e câmbio, e não de uma mudança estrutural no patamar de preços do grão.
Para o produtor que ainda possui estoque de soja da safra passada, o momento é visto como favorável para avaliar a comercialização, especialmente diante da valorização acumulada nas últimas semanas. Já para quem se planeja para o próximo ciclo de plantio, o comportamento do dólar e o desenrolar da situação climática nos Estados Unidos seguem como as principais variáveis a monitorar até a divulgação do próximo relatório de oferta e demanda global, aguardado pelo mercado com expectativa de trazer mais clareza sobre os rumos dos preços no segundo semestre.
A recuperação do preço da soja em julho mostra como o mercado agrícola brasileiro segue sensível a fatores internos e externos, do câmbio ao clima em outros países produtores. Para o setor, a combinação entre exportações recordes e cenário internacional ainda incerto reforça a necessidade de acompanhar de perto os próximos indicadores, já que qualquer mudança nesse equilíbrio pode alterar rapidamente as cotações que chegam até a porteira da fazenda.
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