Sobretaxa combinada de 37,5% passa a valer para parte relevante das vendas do agronegócio aos Estados Unidos, e CNA cobra solução negociada do governo americano
O comércio exterior do agronegócio brasileiro entrou em um novo momento de tensão nas últimas semanas. Duas medidas tarifárias distintas anunciadas pelo governo dos Estados Unidos passaram a incidir sobre produtos do setor, elevando de forma significativa o custo de acesso ao mercado americano para parte dos exportadores brasileiros. O impacto já é mensurado por entidades do setor produtivo e chega em um momento delicado, já que o agronegócio vinha de um semestre de exportações recordes. A dúvida que fica para produtores e exportadores é simples: quais produtos foram realmente afetados, qual o tamanho do prejuízo esperado e que caminhos o Brasil ainda tem para reverter ou amenizar essa cobrança.
Duas medidas tarifárias somadas pressionam o setor
De acordo com a Agência Gov, o governo dos Estados Unidos publicou, em julho, duas decisões distintas com base em investigações comerciais amparadas na Seção 301 de sua legislação. Segundo o texto oficial, nos dias 15 e 23 de julho de 2026, foram estabelecidas sobretaxas adicionais de 25% e de 12,5% sobre parcelas das importações originárias do Brasil, sendo a primeira decorrente de investigação específica sobre o país e a segunda ligada a práticas relacionadas à prevenção e ao combate ao trabalho forçado nas cadeias globais de suprimentos. Essa segunda medida não mirou apenas o Brasil, mas um grupo mais amplo de parceiros comerciais dos Estados Unidos, aplicando alíquotas diferentes conforme a avaliação americana sobre o cumprimento de normas trabalhistas em cada país. Agência Gov
Ainda segundo a Agência Gov, a tarifa entrou em vigor em 22 de julho de 2026, mas não se aplica a mercadorias já embarcadas e em trânsito antes dessa data, desde que ingressem em território norte-americano até 29 de julho de 2026, o que deu uma margem de adaptação para cargas que já estavam a caminho dos portos americanos. No caso específico da sobretaxa ligada ao trabalho forçado, a tarifa adicional de 12,5% foi aplicada a 41 economias, enquanto a alíquota de 10% recaiu sobre outras 19 economias, dentro de um grupo de sessenta países considerados os maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos analisados nessa investigação. O Brasil ficou entre os países enquadrados na faixa mais alta dessa cobrança adicional. Agência GovAgência Gov
O resultado prático da sobreposição das duas medidas já foi quantificado por levantamentos do setor. Segundo reportagem do portal RCN67, cerca de 32,9% do volume de vendas do agronegócio brasileiro aos Estados Unidos foram atingidos simultaneamente pelas duas tarifas, resultando em uma sobretaxa total de 37,5%, enquanto outros 12,3% dos embarques passaram a responder exclusivamente ao novo adicional de 12,5%. Por outro lado, a mesma apuração indica que 53% das exportações agrícolas brasileiras para o mercado americano seguem isentas de ambas as tributações, o que mostra que o impacto, embora relevante, não atinge de forma uniforme toda a pauta exportadora do setor. RCN67RCN67
O que a CNA diz sobre o impacto no setor
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) tem acompanhado de perto os desdobramentos das duas medidas e já se posicionou publicamente sobre o assunto. Em relação à primeira tarifa, de 25%, a entidade calcula que 36,5% das exportações do agronegócio brasileiro para os Estados Unidos serão afetadas pela sobretaxa, enquanto os 63,5% restantes devem permanecer fora da medida após a ampliação da lista de exceções pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos. Segundo a diretora de Relações Internacionais da CNA, Sueme Mori, a inclusão de mais produtos na lista de isenções reduziu o alcance da tarifa, mas uma parcela significativa das vendas brasileiras continua sujeita à cobrança adicional. Correio Braziliense
Entre os produtos que passaram a ficar de fora da tarifação após a revisão da lista de exceções estão pescados, mel e café solúvel, itens que representavam parte relevante das exportações do setor para o mercado americano. Por outro lado, mesmo após a ampliação das isenções, produtos como madeira, arroz, uva, ovos e açúcar continuam sujeitos à cobrança adicional, o que mantém pressão sobre cadeias produtivas específicas que dependem fortemente do mercado dos Estados Unidos para escoar sua produção. A CNA atribuiu a ampliação da lista de exceções à atuação conjunta da entidade e de outros representantes do setor privado junto ao governo americano. Bahia EconomicaBahia Economica
Já em relação à segunda medida, ligada à investigação sobre trabalho forçado, a reação do setor foi mais dura. Segundo o RCN67, a diretora de Relações Internacionais da CNA ressaltou que o encargo reduz drasticamente a competitividade dos produtos nacionais, e a entidade contestou formalmente os fundamentos utilizados pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, argumentando que o Brasil possui legislação rígida contra o trabalho escravo. Para a CNA, medidas tarifárias amplas como essa acabam penalizando produtores que cumprem integralmente a legislação trabalhista brasileira, mesmo sem qualquer indício concreto de irregularidade em suas operações específicas. RCN67
Caminhos possíveis para o setor exportador
Diante desse cenário, a CNA tem defendido publicamente a busca por uma solução negociada entre os dois países, evitando que o impasse comercial se prolongue e amplie ainda mais os prejuízos para o setor exportador brasileiro. Segundo o Correio Braziliense, a entidade participou das consultas públicas realizadas em Washington e apresentou contribuições técnicas ao longo do processo, argumentando que a competitividade do agro brasileiro é resultado de ganhos de produtividade, inovação e investimentos, e não de práticas comerciais desleais. A confederação também defendeu formalmente a exclusão de todos os produtos agropecuários brasileiros da medida, destacando a complementaridade entre as cadeias produtivas dos dois países, já que parte considerável do que o Brasil exporta aos Estados Unidos não compete diretamente com a produção interna americana. Correio Braziliense
Para os próximos meses, o setor deve seguir monitorando de perto tanto o desenrolar das negociações diplomáticas quanto o comportamento das exportações para outros mercados, que podem ganhar espaço como alternativa parcial à redução da competitividade no mercado americano. Cadeias específicas, como a de arroz e açúcar, tendem a sentir o impacto de forma mais direta, enquanto setores que conseguiram entrar na lista de exceções, como pescados e café solúvel, devem manter o ritmo normal de embarques aos Estados Unidos nos próximos meses.
O episódio reforça um desafio recorrente para o agronegócio brasileiro: lidar com decisões de política comercial tomadas fora do país, mas que afetam diretamente o resultado financeiro de produtores e exportadores nacionais. Enquanto a CNA e o governo brasileiro buscam alternativas diplomáticas para reduzir o impacto das novas tarifas, o setor exportador segue avaliando, produto a produto, quais cadeias precisarão se reorganizar para enfrentar um mercado americano mais restritivo nos próximos meses.
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